Onda de Resgates nos Fundos de Crédito dos EUA
A recente onda de resgates que atingiu gestoras de peso nos Estados Unidos não é resultado de problemas de qualidade dos ativos, mas sim de uma falha no desenho dos próprios veículos de investimento. A distância entre o valor em que cada fundo marca sua carteira e o preço pelo qual suas cotas são negociadas em bolsa criou um desalinhamento, onde os investidores que resgatam suas cotas recebem mais do que aqueles que vendem no mercado aberto.
De acordo com Alexandre Muller, sócio e gestor de crédito privado da JGP, “o investidor realiza um ganho quando ele resgata”. Isso ocorre porque os fundos de crédito privado nos EUA operam fora do radar do regulador, em transações diretas entre fundos e empresas, e as cotas são negociadas na bolsa, mas os investidores também podem pedir resgate de até 5% do patrimônio do fundo a cada trimestre.
Problema de Desenho dos Fundos
O problema está concentrado em veículos listados em bolsa que se popularizaram no varejo americano. Eles funcionam em um modelo híbrido, onde as cotas são negociadas na bolsa, mas os investidores também podem pedir resgate. A exposição desses veículos ao setor de software, alvo de receio por causa do avanço da inteligência artificial, derrubou as cotas em bolsa, e muitos passaram a ser negociados com desconto em relação ao valor patrimonial.
- A marcação dos ativos é feita pelos próprios gestores, sem um administrador independente.
- Isso criou um desalinhamento entre o valor de patrimônio e o preço de mercado.
- Quem resgata recebe pelo valor de patrimônio, enquanto quem vende na bolsa aceita o desconto.
Segundo Muller, esse descompasso virou um estímulo direto ao saque, e o acúmulo de pedidos estourou o limite trimestral previsto nos regulamentos, obrigando várias gestoras a restringir os resgates.
No entanto, Muller avalia que se trata mais de um problema de produto do que de classe de ativos. O mérito do crédito privado americano continua de pé, com capacidade de desenhar financiamentos sob medida para data centers, energia limpa e até royalties de música.
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