Fim da escala 6×1: dilema entre produtividade e novos postos opõe visões de mercado
O debate econômico em torno do impacto do fim da escala 6×1, que foi aprovada na Câmara dos Deputados e segue agora para o Senado, traz diferentes cenários de avaliação. De um lado, entidades patronais falam em demissões em massa e queda do PIB. Do outro, pesquisadores de institutos e universidades apontam a capacidade de adaptação da economia, com base na expectativa de ganhos de produtividade.
Na avaliação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), as diferenças nas análises se devem ao modelo comportamental adotado nas projeções. Enquanto as entidades empresariais frequentemente calculam o impacto como uma perda estática (menos horas = menos produção), os centros de pesquisa consideram os mecanismos de compensação que as empresas naturalmente adotam para manter seus negócios funcionando.
Impacto na economia
O relatório da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 8/25 aprovada na Câmara propõe a redução da jornada semanal de trabalho para 40 horas. Estima-se que a mudança atingiria diretamente pelo menos 37% do mercado formal de trabalho, contemplando cerca de 38,4 milhões de pessoas que hoje exercem atividades com carga horária superior a esse limite.
Para Joana Simões de Melo, técnica de planejamento e pesquisa na Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, o impacto mais direto da redução de jornada é o aumento do custo da hora trabalhada, que poderia chegar a um acréscimo de 7,8%. No entanto, ela avalia que isso não significa que o nível de produção deverá cair, pois o empregador tem a opção de contratar mais trabalhadores.
Produtividade e novos postos
Em vez de colapso, o estudo do Ipea aponta que a redução das horas deve criar uma “oportunidade para a reorganização interna, redução de desperdícios e inovações tecnológicas”, que podem levar ao aumento de produtividade. A mudança incentiva o setor produtivo a parar de competir apenas via rebaixamento de custos trabalhistas, e passar a competir por eficiência de gestão.
Simulações feitas por pesquisadoras da Unicamp demonstraram que, em cenários de manutenção da produção constante, seria possível um aumento de 4,02% na produtividade/hora e a criação de 3,62 milhões de novas ocupações.
- A redução da jornada é vista como uma medida estratégica para aliviar a carga de trabalho nestes setores, sobretudo sobre as mulheres, que despendem mais horas semanais em trabalho não remunerado (cuidado e tarefas domésticas) do que os homens.
- O maior contingente populacional a se beneficiar da mudança na legislação são os homens, em especial homens negros, que trabalham em média jornadas maiores e se encontram frequentemente em sobretrabalho.
- A redução nas jornadas de trabalho abre espaço para divisões mais igualitárias de atividades de cuidado e tarefas domésticas, o que pode reduzir o impacto deste trabalho, frequentemente não remunerado, em suas vidas.
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