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Mapa de Risco: Crise Brasil-EUA foi superdimensionada pelo debate político?

A sequência de embates entre Brasil e Estados Unidos nos últimos meses ajudou a consolidar no debate político brasileiro a percepção de que os dois países caminhavam para uma crise diplomática sem precedentes. No entanto, para o cientista político Guilherme Casarões, professor da Florida International University, boa parte dessa leitura foi amplificada pela polarização política e pela disputa eleitoral brasileira.

Durante participação no programa Mapa de Risco, Casarões afirmou que os atritos entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump jamais chegaram perto de produzir uma ruptura concreta nas relações bilaterais. “A temperatura não estava tão quente assim”, resumiu o professor ao analisar os episódios recentes envolvendo tarifas, restrições diplomáticas, sanções e trocas de críticas públicas entre os dois governos.

O auge da tensão

O momento mais delicado ocorreu após a carta divulgada por Trump em julho do ano passado, quando o presidente americano anunciou tarifas de 50% contra produtos brasileiros e passou a associar a medida ao que chamou de perseguição contra Jair Bolsonaro e censura praticada pelo STF. Na avaliação do cientista político, aquele episódio realmente marcou o ponto mais baixo da relação bilateral em décadas.

Além das tarifas, os EUA abriram investigações comerciais contra o Brasil, restringiram vistos de autoridades brasileiras e aplicaram sanções contra Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky. No entanto, o professor argumenta que o próprio excesso de medidas acabou limitando a capacidade americana de continuar escalando o conflito.

A crise que virou narrativa

A partir dali, iniciou-se um movimento gradual de descompressão da crise. Primeiro vieram negociações reservadas entre diplomatas. Depois, a retirada parcial das tarifas. Em seguida, o recuo em outras medidas adotadas anteriormente pela Casa Branca. “Ficou claro que o esgotamento das possibilidades da caixinha de ferramentas do governo americano teria que levar a uma situação um pouco melhor”, afirmou.

Casarões também criticou o tom alarmista que passou a dominar parte da cobertura política brasileira sempre que surgiam novos atritos diplomáticos. Ele citou como exemplo o episódio envolvendo a prisão de Alexandre Ramagem pelo ICE e a posterior troca de medidas entre autoridades brasileiras e americanas ligadas a vistos e credenciais diplomáticas.

  • Todo mundo falou: “vai ser a Terceira Guerra Mundial, é o fim do mundo, o Brasil vai acabar”. E nada aconteceu.
  • A interpretação distorcida nasce da tendência brasileira de analisar a relação com os Estados Unidos como se os dois países ocupassem o mesmo peso estratégico no tabuleiro internacional.
  • Brasil não era prioridade para Trump, que tem outras prioridades mais urgentes, como inflação, tensões internas no trumpismo e a guerra envolvendo o Irã.

Na visão do professor, o encontro realizado entre Lula e Trump acabou funcionando como a consolidação desse processo de normalização das relações entre os dois governos. “Não tem nada fora do esquadro, nada que a gente possa ler como o prenúncio de uma ruptura diplomática”, afirmou.

Casarões pondera, no entanto, que a imprevisibilidade de Trump continua sendo um fator de instabilidade permanente. “Em se tratando de Trump, a gente nunca sabe qual é o próximo passo”, disse. Ainda assim, ele avalia que o momento atual é de relativa estabilidade entre Brasília e Washington, sobretudo porque há interesse mútuo em preservar a relação.

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