A Arte de Carlos Fajardo na Bienal de 1987
A XIX Bienal de São Paulo, em 1987, foi palco para uma exposição inovadora de Carlos Fajardo, que desafiou as convenções da pintura e do espaço. A sala ocupada pelo artista apresentava telas dispostas de forma calculada, quase tangenciando o chão, e um cubo cromático no centro, criando uma atmosfera única e envolvente.
Desde o início dos anos 1980, Fajardo vinha desenvolvendo procedimentos que subvertiam a lógica convencional do quadro, apoiando as telas na parede e justapondo-as como se fossem um quadro só. Isso transformava a sala em parte da obra, criando um espaço que era atravessado por linhas invisíveis que iam do vértice do cubo aos cantos das telas.
- A sala se tornava um contêiner não neutro, mas sim uma parte integral da obra.
- As telas se transformavam em placas opacas que interferiam na circulação do observador e alteravam a forma como a sala era percebida.
- O espaço vazio entre os planos se tornava uma linha que funcionava como elemento constitutivo da obra.
Fajardo preferia materiais como fórmica, madeirite e duraplac, que encarnavam a ideia de cor impessoal e superfície opaca. As telas de 1987, com o amarelo dos grandes painéis e o vermelho denso do cubo, não ilustravam nada, mas sim modificavam a atmosfera da sala, tingindo o ar e o piso de um brilho discreto.
A montagem de 1987 foi única por sustentar uma contradição entre a frieza industrial das placas e a delicadeza com que a cor escapava pelas bordas. Isso impedia o trabalho de cair na literalidade seca de certos objetos minimalistas e, ao mesmo tempo, o afastava da interioridade expressiva da pintura moderna.
Formalmente, as obras não deixaram de ser pinturas, mas funcionavam como módulos provisórios de um canteiro espacial dispostos a ser reconfigurados pelo simples ato de olhar e caminhar. O sentido da obra nunca estava dentro dela, mas sim na distância que ela instaurava com o mundo e com o corpo de quem esbarra com isso.
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