Texto de opinião
Mesmo sendo sustentado por uma atuação notável de George Clooney e uma performance correta e surpreendentemente contida de Adam Sandler, Jay Kelly é um filme claramente dividido em duas fases — quase dois filmes dentro de um só.
🎬 A primeira fase: acessível, fluida, quase clássica
Na primeira metade, o filme fala mais diretamente com o público. Há mais ação dramática, mais situações reconhecíveis, mais ritmo. É a parte mais divertida e fácil de assistir, aquela que “agarra” o espectador.
Esse trecho funciona muito bem até o momento em que Jay está no trem e reencontra a filha — um ponto de virada narrativo e emocional. É também onde surgem as memórias mais interessantes da vida do personagem: episódios que explicam sua trajetória, como a audição que deu início à sua carreira como astro de cinema, pequenos bastidores que ajudam a construir empatia sem excessos.
Aqui, Clooney está confortável: é o cinema que ele domina há décadas.
🎭 A segunda fase: introspecção e espelho
A partir daí, o filme muda de chave. A segunda metade é mais silenciosa, introspectiva e menos “amigável”, e talvez por isso mais desafiadora.
É quando Clooney parece atuar menos para o público e mais para si mesmo. Em certo sentido, o filme sugere que o mais difícil não é interpretar um personagem, mas interpretar a própria essência. Surgem detalhes quase metalinguísticos — como o cuidado obsessivo em repetir tomadas — que soam como comentários sobre aperfeiçoamento, controle e arrependimento.
O núcleo emocional aqui é duro:
Jay entende que é tarde demais para “voltar a estar com as filhas”, não porque não as ame, mas porque elas já têm suas próprias vidas — e essas vidas existem mesmo sem ele fazer parte delas. Não há catarse fácil, apenas aceitação. É um lamento contido, adulto, desconfortável.
📺 O problema não é o filme — é onde ele está
E aqui surge uma frustração legítima: filmes como Jay Kelly dificilmente chegam às telonas. Produzidos pela Netflix, eles passam a depender quase exclusivamente do algoritmo, da propaganda interna e do acaso.
Ou o espectador tropeça no título por curiosidade,
ou alguém recomenda “de boca em boca”,
ou o filme fica perdido no catálogo — até, quem sabe, receber uma indicação pontual a prêmio por atuação ou roteiro.
É curioso, porque o filme pede uma sala escura, pede silêncio, pede atenção — coisas que o streaming raramente favorece.
🎥 Produção em massa ≠ curadoria
É verdade que a Netflix se tornou uma enorme fonte de trabalho para artistas, consagrados ou iniciantes, quase “por igual”. Mas isso não garante qualidade. Cada vez mais, os filtros e critérios de produção não asseguram um bom filme, e não são raros os casos de projetos estrelados que resultam em fiascos criativos.
Esse modelo também estimula sequelas desnecessárias, como aconteceu com Knives Out:
— o primeiro filme foi inventivo e elegante;
— o segundo, inflado e sem alma, parece existir apenas para maratonar porque o algoritmo pedia mais do mesmo.
Enquanto isso, vemos filmes caríssimos fracassarem recentemente, provando que orçamento e estrelas já não são sinônimo de impacto cultural ou sucesso de público.
❓ A pergunta que fica
A Netflix já faz exibições limitadas em cinemas nos Estados Unidos e em alguns países — geralmente para cumprir exigências de festivais e premiações. Mas isso ainda é exceção, não regra.
Fica então a pergunta:
A Netflix vai, em algum momento, apostar de verdade em levar certos filmes às telonas — no Brasil e no mundo — e se consolidar como produtora cinematográfica plena, e não apenas como um grande inventário autocontido?
Jay Kelly parece exatamente o tipo de filme que merecia essa chance.