No meio da minha entrevista via Zoom com Jade — que lança seu primeiro álbum solo, That’s Showbiz Baby, esta semana — a estrela pop se desculpa brevemente para ajustar a iluminação da câmera. “Não estou gostando dessa luz de cima”, diz ela, desaparecendo da tela, apenas para retornar segundos depois com o rosto um pouco melhor iluminado.
Está claro que Jade é uma profissional em navegar pelo mundo da música. Afinal, ela tem mais de uma década de experiência, tendo surgido pela primeira vez como parte do grupo feminino Little Mix, quando venceram o The X Factor em 2011. Agora, com seu primeiro álbum solo, a estrela finalmente está fazendo música sob seus próprios termos. “Num grupo, você escreve conceitos mais genéricos que possam se relacionar com todos”, diz Jade. “Sozinha, eu pude finalmente acessar experiências pessoais e ousar mais — ser um pouco mais controversa nas letras.”
Seus seis singles até agora — sim, seis, e todos bops certificados — já deram um gostinho da visão única de Jade. Sua faixa de estreia, “Angel of My Dreams”, foi uma introdução arriscada (mas bem-sucedida): uma música teatral e sintética que aborda sua relação de amor e ódio com a indústria musical. (O clipe também é puro camp pop.) Ela queria se reapresentar como uma artista sem limites. “‘Angel’ sempre será aquela doida que chegou chutando a porta — e deu certo”, diz Jade. “Foi um alívio não ter que lançar um primeiro single que fosse feito só para tocar no rádio ou ser super comercial. Já fiz isso no Little Mix.”
Desde então, Jade lançou outros singles igualmente contagiantes, como a dançante “FUFN (Fuck You For Now)” e “Fantasy”, um hit pesado no disco que te faz querer correr para a Studio 54 (com um clipe glamouroso dirigido por David LaChapelle, nada menos). Em meio a uma onda de novas estrelas pop (Sabrina! Chappell!) e divas consagradas (Gaga! Beyoncé!), Jade ocupa um espaço único — e usou isso para encontrar sua própria voz.
Como Jade descreveria seu som agora? |“É um pop Frankenstein caótico. É teatral, é grande e barulhento — e sou eu.” Jade fala sobre transformar tristeza e estresse em bops, escapar do estilo das girl bands e finalmente se sentir renascida.
Vogue: Quando você começou a idealizar este álbum?
Jade: Quando comecei esse álbum, tinha acabado de sair do Little Mix, então precisei de um tempo para pensar: “Uau. Nas palavras da Lorde, ‘O que foi isso?’” Precisei entender o que tinha sido a última década da minha vida e aprender a existir fora do grupo. Levei um tempo — fiz um pouco de terapia, viajei, vi amigos e família. Mas depois comecei a ir e voltar para Los Angeles, escrevendo com vários compositores e produtores, como o MNEK. Foi uma fase de experimentação e de tentar estabelecer meu próprio som. Quando comecei a fazer isso, fiquei empolgada. Levou cerca de três anos, e estou muito feliz por ter esperado — porque fiz músicas melhores.
Vogue: Você lembra quais foram algumas das primeiras músicas que criou?
Uma das primeiras que escrevi foi “Self Saboteur”, e ela era bem diferente do que é agora. Era mais contida, com produção bem minimalista. Escrevi quando conheci meu parceiro, Jordan [Stephens]. Naquela época, comecei a escrever músicas mais pessoais. Tenho um histórico de fugir quando as coisas ficam boas ou de ter medo do amor. Achei um conceito bem relacionável — esse conflito com nosso sabotador interno.
Vogue: Imagino que tenha sido libertador poder escrever sobre o que estava vivendo.
Conforme as sessões foram acontecendo, encontrei essa liberdade. Escrevi muitas músicas. Algumas horríveis, outras boas — e tem algumas que estou devastada por não estarem no álbum. Mas sempre tem espaço na versão deluxe.
Vogue: Você levou três anos para fazer o álbum porque é perfeccionista ou porque não queria apressar o processo?
Sou definitivamente perfeccionista, mas na verdade tive dificuldade com esse tempo. Estou acostumada a lançar música o tempo todo. No Little Mix, era um álbum por ano e turnê no ano seguinte. Tive medo saindo do grupo, tipo: “Meu Deus, preciso lançar logo enquanto tem hype. Vão esquecer quem eu sou!” Somos programadas para buscar relevância, então tive que lutar contra esse ego. Mas estou feliz por ter esperado. Se eu tivesse lançado no primeiro ano, não teríamos “Angel of My Dreams” nem “Fantasy” — verdadeiros bops. Quando escrevi “Angel”, já estava cansada de viajar para LA, de escrever, e parei de me importar com o que os outros pensavam. E foi aí que, provavelmente, escrevi minha melhor música.
Vogue: Você concorda que as melhores músicas nascem do caos? Que não dá para estar feliz demais para criar arte?
Acho que sim: às vezes precisa ter um pouco de turbulência, estresse ou cansaço. E é frustrante, porque isso consome muito. É meio tóxico pensar que precisa estar sofrendo para criar algo bom. Tive essa dificuldade no início, porque pensava: “Estou num relacionamento feliz, ficando mentalmente mais saudável. Sobre o que vou escrever?” Mas a única coisa que realmente estava me irritando era a indústria musical. Então foi aí que me encontrei.
Vogue: A conversa sobre o “Pop da Recessão” está em alta agora. Você acha que quanto mais estranho e difícil o mundo fica, melhor o pop se torna?
Sim, e é porque a gente precisa disso. O pop é o maior escapismo dos horrores do mundo. Mesmo quando escrevo sobre coisas negativas, sempre coloco um toque pop que te faz se sentir melhor. Quando penso na COVID, foi o Chromatica da Gaga que me tirou do quarto e me deixou feliz. O pop está em alta de novo porque precisamos dele mais do que nunca. E eu amo que as garotas do pop estão ressurgindo. Estão dominando, como deve ser. Queremos os figurinos, os refrões explosivos, os ad-libs. Queremos tudo.
Vogue: Como é ser uma dessas garotas do pop? Foi um verão estranho, mas ouvi suas músicas em todos os bares gays.
Eu vivo para isso. Quero ser uma das próximas grandes estrelas pop, e quero fazer música que traga alegria ou ajude as pessoas a extravasar frustrações. Músicas como “FUFN” e “Plastic Box” têm esse escapismo eufórico. É o que eu procuro para mim, e espero que isso transpareça para meus fãs — especialmente meus fãs LGBTQ+, que eu adoro. Sei que tenho uma base forte nessa comunidade, então sempre tento ser uma fonte de felicidade em meio a todo esse lixo político e social que estamos vivendo.
Vogue: Você realmente tem essa habilidade de transformar qualquer coisa em um bop.
É uma das minhas coisas favoritas ao compor. Gosto de explorar a escuridão ou o trauma ou algo negativo, mas colocar uma produção leve por cima. Amo músicas felizes-tristes. Amo que as pessoas possam estar dançando e depois perceberem as letras e pensarem: “Puts, isso é bem profundo.” Sempre busco esse estilo Dr. Jekyll e Mr. Hyde numa canção pop.
Vogue: “Plastic Box” é bem isso. Me corrija se estiver errada, mas é sobre insegurança com o ex do seu parceiro, né? Querer alguém só pra você?
Sim. Conhecer o Jordan me fez encarar alguns pensamentos tóxicos meus — e acho isso bem relacionável. Todos passamos por isso, quando estamos obcecados por alguém e começamos a stalkear o ex no Insta. Você pensa: “Será que ele gostava mais dela? Eles se divertiam mais?” Escrever “Plastic Box” foi curativo e confrontador pra mim. Meu namorado não curtiu muito a música quando ouviu. Ele disse: “Pelo amor de Deus, isso é bem tóxico.” Mas para mim é importante ser honesta. Me melhoro através da música às vezes.
Vogue: Nesse sentido, adorei sua faixa “Headache”. Você concorda que os melhores amores envolvem algumas dores de cabeça?
Concordo totalmente. Qualquer relacionamento exige sacrifícios. Você precisa se comprometer, e a outra pessoa também. E há conflitos. “Headache” nasceu de uma conversa com meu amigo Pablo, com quem escrevi a música. Eu disse a ele como fico insuportável quando estou na TPM. E daí surgiu essa música caótica. Queria que ela parecesse uma dor de cabeça literal, com um final dramático e bonito. Tipo os portões do paraíso se abrindo, e você percebendo que ainda pode me amar — mesmo eu sendo uma vaca às vezes.
Vogue: A produção do álbum casa perfeitamente com o clima de cada música. “Glitch”, por exemplo, soa muito glitchy. Foi divertido fazer isso?
Tem que acertar, porque senão fica brega. Sou muito visual, então, quando escrevo letras, a produção precisa refletir isso. Gosto de ser óbvia às vezes. Aí entra o humor das minhas músicas — ver coisas pesadas sem levar tudo tão a sério. “Glitch” surgiu porque tenho um tique no olho quando estou ansiosa. Queria que fosse bem eletrônica. Meu cérebro literalmente travando. Queria uma vibe meio Janet Jackson. Meu sonho é compor um “Feedback”.
Vogue: Essa música é subestimada demais. Mas acho que você captou algo mágico em “Angel of My Dreams”. Foi arriscado, né?
É quem eu sou. Com “Angel”, não me importava com o desempenho porque me orgulhei de criar uma música tão maluca. Então, qualquer que fosse a resposta, eu poderia dizer: “Essa foi minha decisão criativa.” Para minha saúde mental, é ótimo não ter que pensar em números ou rankings. Já fiz isso com o Little Mix. Agora é hora de experimentar e me divertir.
Vogue: Seus clipes, como os de “Angel” e “Fantasy”, são incríveis. Você realmente investe neles.
Cresci vendo videoclipes. Agora dizem que os clipes estão morrendo, e eu fico tipo: “Não!” No pop, somos artistas visuais, e um clipe pode elevar a música. Ele conta a história da canção. Sei que está mais difícil fazer vídeos hoje, por falta de orçamento. Mas eu sempre darei um jeito — mesmo que saia do meu bolso. Adoto a abordagem mais é mais. Especialmente nesse primeiro disco, pude mostrar quem eu sou em cada vídeo.
Vogue: Como foi trabalhar com David LaChapelle em “Fantasy”? Um ícone, né?
David sempre foi referência. Quando ele me procurou, não acreditei. Tive que dizer: “David, obviamente não sou a Britney Spears. Não temos um orçamento de um milhão. Dá pra fazer acontecer?” E ele disse: “Faremos o que for preciso.” Trabalhar com ele foi fenomenal, porque ele é um diva — no melhor sentido. É do estilo antigo, puro showbiz. Amei isso. Um dia antes da gravação, ele entrou na sala, me colocou num pedestal, trouxe as costureiras. Eu estava com o vestido, elas me ajustando, ele dizendo: “Isso não está certo, aquilo também não.” Foi estressante. Mas pensei: “Meu Deus, é isso que esperei a vida toda.”
Vogue: Moda é parte essencial do estrelato pop. Como está sua relação com o estilo hoje?
Meu stylist já trabalhava no Little Mix. Trouxe ele comigo porque sabia que ainda não tinha mostrado todo seu potencial. Num grupo, você é limitada ao que todas querem usar — precisam combinar. Agora, quisemos marcar mais presença no mundo da moda. Minha vibe é meio Hannah Montana de dia, e quando não estou de popstar, sou mais andrógina e largada. A Jade popstar é mais maximalista. Temos trabalhado com designers dispostos a ousar. Me senti mais livre na moda como artista solo, coisa que talvez não sentisse antes. Estou sempre disposta a tentar coisas novas — e a errar às vezes também.
Vogue: É curioso pensar que este é seu primeiro álbum solo, mesmo depois de tanto tempo na indústria. Você vê isso como uma reintrodução? Um novo capítulo?
Parece mesmo um renascimento, por mais clichê que pareça. Descobri muitas coisas sobre mim nesse processo. Superei minhas próprias expectativas às vezes — e isso foi uma lição, de me dar meus próprios méritos. Redescobri aquele fogo na barriga, aquela vontade de provar que consigo subir no palco e valer cada centavo do ingresso. Ainda tenho muito a mostrar, coisas que o público não viu quando eu estava no grupo. Tem sido muito legal ver gente se convertendo em fãs da Jade.
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