A Objetificação das Mulheres na Cultura Pop: O Caso de “Euphoria” e o Male Gaze
A estreia da terceira temporada de “Euphoria” trouxe de volta à discussão a forma como a cultura pop objetifica as mulheres. A série, criada por Sam Levinson, apresenta personagens femininas em situações de exploração e sofrimento, o que levanta questões sobre a forma como essas cenas são filmadas e apresentadas. O conceito de “male gaze”, cunhado pela teórica Laura Mulvey nos anos 70, descreve a câmera que olha o corpo feminino do ponto de vista do desejo masculino, organizando o que se vê a partir de quem deseja e não de quem é visto.
Em “Euphoria”, o olhar de Sam Levinson atravessa cada canto de uma série protagonizada majoritariamente por mulheres, onde nenhuma delas ganha representatividade que faça jus à complexidade que deveriam ter. A estética deslumbrante e as atrizes extraordinárias acabam servindo para enquadrar sofrimento feminino com a mesma elegância com que enquadrariam qualquer outra coisa bonita. Mostrar mulheres em situações de exploração não é o problema em si, mas sim a forma como essas personagens não encontram subjetividade própria dentro dessas situações, porque a câmera as olha de fora, como superfície.
Além disso, a música também é um exemplo de como a cultura pop objetifica as mulheres. Um levantamento recente mostrou que a palavra “p*ta” é a mais usada pelos intérpretes masculinos entre as dez músicas mais ouvidas no Spotify, aparecendo em metade das faixas do top 10. Isso chama atenção não apenas pelo vocabulário, mas pela naturalidade com que ele circula, cantado em coro, dançado em festa, reproduzido sem que quase ninguém pause para ouvir o que está sendo dito.
- A objetificação das mulheres na cultura pop é um problema antigo, mas o que mudou é a estrutura da relação entre quem consome e o que consome.
- A menina de hoje não é só espectadora de um conteúdo que chega pelo canal aberto, ela produz, publica, coleciona curtidas, e é avaliada pelo mesmo padrão que consome.
- O olhar do outro, que a psicanálise entende como constitutivo do sujeito, deixou de vir só de fora e passou a ser uma ferramenta de autoavaliação permanente que ela carrega no bolso.
A psicanálise tem um conceito preciso para o que acontece quando isso se repete sem interrupção: identificação. É pelo processo de identificação que o sujeito se constitui a partir do olhar e do desejo do outro, internalizando as imagens que o cercam como referências de si mesmo. Uma menina que cresce sendo vista como objeto aprende, antes de qualquer escolha consciente, que é isso que ela é. O que ninguém pergunta é o que se perde quando ela tenta, mais tarde, descobrir o que ela mesma deseja.
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