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Entre a romantização da mãe ideal e a mãe narcisista: o que não cabe nos rótulos da maternidade?

Entre a Romantização da Mãe Ideal e a Mãe Narcisista

O debate sobre a maternidade e o narcisismo materno tem sido um tema recorrente nos últimos tempos. Um episódio recente envolvendo Victoria Beckham no casamento de seu filho mais velho serviu como ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre a dificuldade de pensar em dinâmicas de centralidade materna sem cair na idealização ingênua da maternidade ou na tentação de transformar qualquer desconforto relacional em diagnóstico.

É importante reconhecer que existem mães profundamente narcísicas, e isso não é um exagero das redes sociais nem uma invenção clínica recente. O narcisismo é um modo de investimento libidinal que pode se tornar fechado, autorreferente e incapaz de tolerar frustrações. Quando esse investimento materno não admite limites, o filho corre o risco de ser capturado como extensão do eu materno, convocado a sustentar ideais, reparar faltas e garantir uma imagem que não lhe pertence.

  • A maternidade deixa de operar como função de sustentação da separação e passa a funcionar como campo de captura.
  • A mãe não precisa ser explicitamente violenta ou controladora para ser intrusiva; basta que não suporte a alteridade do filho, que antecipe desejos, invalide escolhas ou reaja com ressentimento sempre que não ocupa o centro simbólico da relação.
  • O efeito disso costuma aparecer mais tarde, na forma de culpa persistente, dificuldade de autonomia, medo de decepcionar e relações adultas marcadas por submissão ou rupturas abruptas.

Reconhecer essa realidade é fundamental, sobretudo porque a clínica está repleta desses efeitos. No entanto, o problema surge quando essa leitura necessária se transforma em explicação automática para qualquer conflito familiar. A psicanálise não trabalha com personagens planos nem com julgamentos apressados, e é importante não confundir excesso com intrusão ou dificuldade de separação com narcisismo patológico.

Ao mesmo tempo, ponderar não significa relativizar tudo. Há um risco contemporâneo em suavizar demais experiências que produzem sofrimento real, como se reconhecer o narcisismo materno fosse uma ameaça à imagem idealizada da maternidade. Nomear essas dinâmicas não destrói o laço materno, apenas o retira do campo da idealização, onde ele nunca pertenceu.

Entre a romantização da mãe perfeita e o rótulo fácil da mãe narcisista, há um campo complexo que exige mais escuta do que julgamento. É nesse espaço incômodo, longe dos slogans terapêuticos e das certezas instantâneas, que a análise continua sendo necessária.

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