Depressão crônica altera forma como as redes cerebrais se comunicam
Um estudo realizado por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Oxford, no Reino Unido, sugere que a duração da doença é um fator determinante para as mudanças estruturais que ocorrem no cérebro de pacientes com transtorno depressivo maior (TDM). Os resultados indicam que a duração da doença está associada a mudanças na forma como determinadas redes cerebrais se comunicam.
Os autores analisaram imagens cerebrais de 46 pacientes com TDM e identificaram que pacientes crônicos e não crônicos apresentam padrões distintos de conexão entre duas redes funcionais importantes do cérebro: a Rede Executiva Central e a Rede de Modo Padrão. A Rede Executiva Central é responsável pelo controle executivo, que envolve funções como atenção, planejamento e tomada de decisão, enquanto a Rede de Modo Padrão está associada a processos mentais internos, como autorreflexão, memória autobiográfica e imaginação de situações futuras.
Em condições típicas, o cérebro alterna entre essas duas redes de maneira coordenada, mas na depressão, esse equilíbrio pode ser desfeito, favorecendo a predominância de pensamentos introspectivos com viés negativo. Isso ajuda a explicar por que pessoas com depressão tendem a ficar presas a pensamentos ruins e podem ter dificuldade em direcionar a atenção para o ambiente quando necessário.
Dinâmica cerebral
A dinâmica cerebral é complexa e envolve a interação entre diferentes redes cerebrais. A Rede de Modo Padrão é frequentemente dividida em sub-redes, e uma região específica dessa rede, o pré-cúneo, funciona como uma espécie de “ponte” com a rede do controle cognitivo (a Executiva Central). O fator “tempo” se revelou decisivo nessa dinâmica, e os pesquisadores observaram que em pessoas com episódios mais recentes de depressão, quanto mais graves eram os sintomas, mais fraca ficava a conexão entre a rede do foco e a da introspecção.
Já em pacientes com depressão de longa duração (crônica), foi identificado o oposto: quanto maior a severidade, mais forte se tornava a conectividade entre essas redes. Isso pode refletir mudanças progressivas na forma como elas se comunicam.
Mudanças na massa cinzenta
Outra conclusão do estudo é que a gravidade dos sintomas está associada ao volume de massa cinzenta em duas regiões específicas: o córtex cingulado anterior e o córtex pré-frontal dorsolateral direito. Embora em pessoas saudáveis um volume maior de massa cinzenta costume indicar um melhor funcionamento da região, nas pesquisas sobre depressão esses dados variam muito.
A descoberta está alinhada com exames de tomografia e estimulação magnética transcraniana, que sugerem que a depressão envolve um desequilíbrio no córtex pré-frontal (a central de comando do cérebro), gerando menor atividade no lado esquerdo e maior atividade no lado direito.
- A escolha do tratamento da depressão ainda envolve um processo de ajuste individualizado ao longo do tempo.
- Estudos como este ajudam a avançar, mas precisamos de mais dados antes que essas informações guiem as decisões médicas no consultório.
- Os achados devem auxiliar no desenvolvimento de tratamentos mais personalizados.
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