Conheça os Lagartos que Jogam Pedra-Papel-Tesoura na Natureza
A brincadeira infantil pedra-papel-tesoura também é realizada pelos lagartos-de-manchas-laterais, descobriram cientistas. Sem mãos ou gestos, o jogo acontece por meio de cores na garganta, estratégias de acasalamento e um resultado decisivo para saber quem consegue deixar mais descendentes.
Pesquisadores americanos publicaram esse novo estudo na revista Science, que revela pela primeira vez a base genética e comportamental que sustenta esse curioso “jogo evolutivo”. A descoberta ajuda a explicar como diferentes comportamentos competem e coexistem em uma mesma espécie, mantendo a diversidade biológica ao longo do tempo.
As Regras do Jogo na Natureza
A história começou há cerca de três décadas, nas colinas áridas próximas a Merced, na Califórnia. O biólogo Barry Sinervo, da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, observou que os machos dessa espécie apresentavam três cores distintas na garganta durante a época reprodutiva: laranja, azul e amarelo. Cada cor correspondia a um comportamento específico.
- Os machos de garganta laranja são extremamente agressivos, defendem grandes territórios e controlam várias fêmeas.
- Os de garganta azul são mais fiéis e cooperativos, costumam proteger áreas menores e, em geral, convivem apenas com uma ou duas fêmeas.
- Os machos amarelos, por sua vez, não defendem território e tentam acasalar às escondidas com fêmeas que já estão sob a guarda de outros machos.
Esse triângulo de estratégias lembra claramente o jogo pedra-papel-tesoura. Os machos laranja dominam os azuis; os azuis conseguem expulsar os amarelos; e os amarelos, sorrateiros, superam os laranjas, infiltrando-se em seus vastos territórios.
Do Comportamento aos Genes
A equipe de pesquisadores observou que bastava uma pequena variação genética para distinguir lagartos laranja de azuis. A cor laranja se mostrou recessiva, ou seja, só aparece quando o animal herda duas cópias dessa variante. Em caso contrário, o lagarto se torna azul.
A diferença está ligada à produção reduzida de uma proteína chamada SPR, associada tanto à síntese de pigmentos quanto de neurotransmissores. Isso sugere que uma única mudança genética pode afetar, ao mesmo tempo, cor e comportamento, conectando agressividade e coloração.
A descoberta reforça a ideia de que a diversidade biológica é mantida por interações dinâmicas entre herança genética e flexibilidade comportamental. Mais do que uma curiosidade naturalista, o “pedra-papel-tesoura” dos lagartos-de-manchas-laterais ajuda a compreender como múltiplas estratégias podem coexistir em populações naturais sem que uma delas elimine as demais.
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