Caindo na real – por que pode ser fácil nos enganar (e como nos protegermos)
O ser humano tem uma tendência natural de criar um modelo de realidade que lhe permita entender e navegar pelo mundo. No entanto, essa tendência pode levar a uma falta de reconhecimento da realidade, conhecida como anosognosia. Esse fenômeno foi descrito pelo médico austríaco Gabriel Anton no século 19 e mais tarde estudado pelo neurologista Joseph Babinski, que cunhou o termo anosognosia.
Existem várias teorias que tentam explicar por que isso ocorre, desde alterações na linguagem até modificações na percepção. No entanto, uma das explicações mais interessantes é a do neurologista V. S. Ramachandran, que credita ao hemisfério direito do cérebro o papel de “detector de anomalias”. Segundo Ramachandran, o hemisfério esquerdo do cérebro trabalha para dar coerência à nossa realidade, ignorando aquilo que ameaça a consistência de nosso mapa mental.
Isso pode levar a vieses cognitivos, que nos fazem prestar mais atenção às coisas que confirmam nossas crenças. No entanto, quando anomalias muito grandes entram na consciência e nos obrigam a rever pressupostos, é o hemisfério direito que força reinterpretações da realidade. Lesionado, ele se torna incapaz de dar esse alerta, levando a uma falta de reconhecimento da doença ou da realidade.
Uma pesquisa recente mostrou que as expectativas e pressupostos interferem na maneira como enxergamos e interpretamos a realidade. Por exemplo, quando as pessoas são mostradas imagens em ambientes mal iluminados, elas tendem a enxergar cores mesmo quando as imagens são em preto e branco. Isso demonstra que a percepção da realidade é influenciada por nossas expectativas e crenças.
Um exemplo interessante disso é o seriado “Jury Duty”, que leva essa experiência ao seu limite. No seriado, um participante acredita que está fazendo parte de um documentário, quando na verdade todos os outros participantes são atores desempenhando papéis. A pergunta que fica é: como eles não percebem o absurdo que os cerca?
Acredito que não seja assim tão difícil ser enganado dessa forma. Pressupor que os eventos que nos circundam são reais, por mais improváveis que pareçam, é mais sensato do que acreditar que estamos vivendo em uma espécie de “Show de Truman”. Uma vez que assumimos esse pressuposto, passamos a tentar explicar e racionalizar os acontecimentos de forma a encaixá-los nessa explicação racional e plausível.
A lição não é necessariamente que deveríamos ser mais paranoicos ou desconfiar mais de tudo. Mas, se nos cercamos de um ambiente plural, diverso em opiniões e pontos de vista, mais oportunidades teremos de testes de realidade. E mais fácil fica o trabalho do cérebro em nos mostrar quando as coisas não são bem assim quanto parecem para a gente.
- Conheça as suas próprias crenças e pressupostos
- Busque opiniões e pontos de vista diversificados
- Esteja aberto a mudanças e reinterpretações da realidade
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