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As Cabeças no Centro da Obra de Basquiat

O estilo neo-expressionista de Jean-Michel Basquiat surgiu no início dos anos 1980 em Nova York, desafiando os códigos artísticos eurocentrados da época. Como filho de pai haitiano e mãe porto-riquenha, criado no Brooklyn, Basquiat trouxe para a arte referências que não se encaixavam nas narrativas dominantes, incluindo cultura negra, música, história colonial, linguagem de rua, ciência e violência simbólica.

Entre pertencimento e exclusão, Basquiat construiu sua linguagem visual única. Em suas obras, a figura humana raramente aparece inteira, surgindo cortada, atravessada por texto, com ossos expostos e, frequentemente, reduzida à cabeça. Esse interesse pela anatomia humana, especialmente pelo crânio, tem raízes na infância de Basquiat, quando recebeu de sua mãe o atlas médico Gray’s Anatomy após um acidente.

A cultura ocidental concentrou na cabeça a razão, identidade e autoridade simbólica, tornando o pensamento um privilégio racializado. Em resposta, os crânios de Basquiat surgem fragmentados e cobertos de rabiscos, desafiando essas noções. Em obras como “Untitled (Skull)”, de 1982, a cabeça não é um retrato ou estudo anatômico convencional, mas uma composição de camadas descontínuas, onde ossos, carne, linhas e cores se sobrepõem em tensão permanente.

  • A pintura de Basquiat permanece aberta, sem ponto focal nem leitura linear, convidando o olhar a circular e se perder nas camadas de significado.
  • A cabeça, nesse contexto, deixa de ser sede de identidade unificada ou interioridade psicológica, tornando-se um campo de fricção entre corpo, linguagem e conhecimento.
  • Pensar, em sua obra, é um processo atravessado por história, violência simbólica e exposição, questionando as condições sob as quais certos corpos são autorizados a pensar, existir e ser vistos.

As cabeças neoexpressionistas de Basquiat, com sua recusa ao fechamento formal e simbólico, mantêm o artista no centro do debate contemporâneo. Sua obra tornou visível, de maneira direta e visualmente inconciliável, as condições de existência e visibilidade de corpos marginalizados, desafiando a autoridade simbólica e a razão racializada.

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