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Margareth Dalcolmo: “O mundo estaria melhor se tivesse mais mulheres nas posições de poder”


Sempre tive uma profunda admiração pela coragem, inteligência, serenidade, seriedade, profissionalismo e competência de Margareth Dalcolmo como médica e pesquisadora. Como todos os brasileiros e brasileiras, acompanhei sua luta incansável contra a Covid-19, combatendo o negacionismo que se alastrou por todo o país.
Tive o privilégio de conhecer Margareth Dalcolmo no início dos anos 1990, primeiro, como minha médica pneumologista e, depois, como amiga. Margareth foi uma das primeiras leitoras do meu livro A Outra: um estudo antropológico sobre a identidade da amante do homem casado, de 1990. Também tive a grande alegria de encontrá-la, inúmeras vezes, nos eventos da Academia Brasileira de Letras.

Nesta entrevista exclusiva para a Vogue, Margareth Dalcolmo, aos 70 anos, fala sobre sua relação com a moda, com a beleza e, principalmente, com a própria idade, revelando caminhos para as mulheres lidarem melhor com o processo de envelhecimento.
Mirian Goldenberg: Conte um pouco para as leitoras da Vogue quem é Margareth Dalcolmo.
Margareth Dalcolmo: Quem sou eu Mirian? Eu acabo de fazer 70 anos. Sou capixaba, de Colatina, mas vim morar no Rio de Janeiro ainda criança. Escolhi a profissão de uma maneira muito singular, porque a minha família não tem tradição de médicos, é uma família de juristas: meu pai era advogado e procurador; minha tia, promotora; meu avô e minha irmã, advogados.
Descendente de avós imigrantes italianos do Veneto, não somos uma família rica de origem, mas que sempre deu muita importância à educação. Sempre estudei em excelentes colégios e, como dizia, desde pequena, que queria ser diplomata, meu pai sempre alimentou meu sonho.
Lembro-me de que meu presente mais querido da infância foi um mapa-múndi onde eu, menina de imaginário fértil, ia colocando alfinetes coloridos nos lugares que sonhava ir, sempre com nomes muito exóticos, como Madagascar ou, parafraseando Manuel Bandeira, Passárgada.
Decidi ser médica numa crise da adolescência, aos 17 anos. Era um momento difícil durante a ditadura militar no Brasil e eu sempre tive muita habilidade para cuidar de pessoas mais velhas. Achei que eu seria mais útil ao meu país como médica, sempre com uma visão muito idealista da vida.
E foi uma decisão muito acertada. Nunca me arrependi, nunca tive um momento de hesitação. Meus pais ficaram perplexos quando dei a notícia, porque eu vinha de uma formação nas ciências humanas: havia entrado muito cedo na Aliança Francesa, havia feito o curso clássico da Cultura Inglesa. Mas eu passei muito bem no vestibular de medicina e jamais tive qualquer laivo de arrependimento.
Margareth Dalcolmo
Arquivo Pessoal
Mirian: Perdi muitos amigos queridos durante a pandemia. Como você viveu esse momento de tantas perdas?
Margareth: Eu também perdi amigos, perdi colegas de turma. Sempre declarei que os dias piores da pandemia foram os de muito medo. Eu fiz um testamento, quase perdi uma irmã, mas, felizmente, ela se recuperou. Nesse momento de tantas perdas, escrevi sobre o luto na Covid, que denominei de “luto pressentido”. O luto da Covid foi um luto que pudemos pressentir em muitas situações.
Mirian: Em 2022, você ficou viúva do professor Cândido Mendes, que, faleceu, aos 92 anos, de morte súbita. Como lidou com a perda do seu marido e companheiro de tantos anos?
Margareth: Sim, perdi meu marido em 2022 depois de uma relação longa, madura, muito feliz. Nós fomos muito felizes, muito cúmplices, muito companheiros, com uma admiração mútua imensa, com atividades de vida completamente diferentes, porém interesses intelectuais muito próximos. Então, um amor maduro, um amor de confiança, de cumplicidade enorme, de curiosidade sobre tudo. Eu pude conhecer pessoas maravilhosas através dele, que se tornaram meus amigos também. Eu sinto uma enorme saudade que o tempo vai tornando mais doce, mas é uma saudade permanente.
Mirian: Qual é a sua relação com o mundo da moda, do corpo e da beleza?
Margareth: Minha relação com o mundo da moda, do corpo e da beleza é muito singular, porque, claro, como uma mulher madura de 70 anos tenho vaidades também. Cuido da minha aparência, mas sem excessos. Não obedeço aos padrões mais ortodoxos de autocuidado, faço menos exercícios do que deveria, embora tenha uma vida bastante saudável. Não sou fumante, bebo muito pouco, como muito saudavelmente, embora seja uma gourmet, adoro comer bem.
Fico um pouco tímida de dizer isso, mas meus amigos e clientes me consideram uma pessoa elegante. Acho que o mundo da moda exerce um certo fascínio, sobretudo sobre o imaginário feminino. Não acho que ele seja nocivo, absolutamente. Acho que é muito interessante. Tenho talvez uma curiosidade menor do que a maioria das mulheres, mas isso não quer dizer que eu não tenha cuidado de me vestir adequadamente, de gostar de me vestir bem e de ter interesse em ver coisas relacionadas à moda.
Não, eu não fiz plástica até esse momento da minha vida, você poderia me perguntar. Não sei se terei desejo de fazer em algum momento. Não tenho absolutamente nada contra, não vejo nada de nocivo. Eu acho muito bonito envelhecer com boa saúde, com vontade, com desejo, com esse misto tão saudável entre pathos e ethos, que move o nosso imaginário e a nossa realidade. Eu espero ter sabedoria para continuar envelhecendo assim.
Mirian: Você tem medo de envelhecer? Quais são os seus cuidados com o corpo e saúde?
Margareth: Eu tenho medo, eu tenho. Fico triste de envelhecer, pelas dificuldades, pelas limitações físicas, embora eu não tenha tido nenhuma doença grave. Felizmente, até esse momento da vida, eu tenho os cuidados que já citei: como muito bem, praticamente nenhuma carne vermelha há décadas, não fumo, bebo pouquíssimo, tomo basicamente vinho, sempre com os amigos, e gosto de uma boa comida.
Eu deveria fazer mais exercícios, mas gosto muito de andar e sempre que viajo, e eu viajo com frequência, procuro me locomover o máximo possível a pé e isso é uma coisa muito boa, não é?
Mirian: Quais são seus projetos atuais? Tenho acompanhado suas declarações sobre os malefícios do cigarro eletrônico. Quais são as questões que mais lhe preocupam no momento?
Margareth: Meu projeto atual é continuar trabalhando e escrevendo. Escrever é o que dói e dá prazer ao mesmo tempo, nessa singularíssima relação. Nesse momento, estou iniciando novos projetos de pesquisa clínica. Escrevo muito, estou escrevendo um novo livro. Tenho procurado me manifestar sempre sobre as questões mais candentes relacionadas à minha área. E uma delas é essa invenção tão maléfica que a indústria do tabaco criou: os cigarros eletrônicos.
E isso me preocupa muito, tendo em vista o adoecimento e mortes de crianças e jovens. Hoje, a doença provocada por esses dispositivos eletrônicos já tem nome, tem um código internacional e já pode ser inclusive notificada. O Brasil mantém-se na vanguarda da regulamentação e é exemplo para outros países, como signatário da Convenção Quadro.
Mirian: Acompanho o seu perfil no Instagram e fico impressionada com a sua intensa e profícua atuação profissional. Você viaja pelo mundo inteiro participando de congressos científicos, está sempre presente nas reuniões e encontros da Academia Nacional de Medicina, da qual é membro titular e da ABL, tem uma vida muito ativa e produtiva. Como você consegue administrar o seu tempo? Você pensa em “desacelerar” em algum momento?
Margareth: Olha, Mirian, eu não tenho nenhum interesse em “desacelerar”, como você colocou. Eu administro o meu tempo, o meu dia. É verdade, eu trabalho muitas horas por dia. Eu tenho uma clínica bastante importante de pessoas que eu cuido, eu escrevo, eu publico trabalhos científicos. Então, tenho uma vida muito produtiva e viajo com frequência, dou muitas aulas. Agora, em outubro, vou participar do Ano França-Brasil na Academia Nacional de Medicina Francesa, falando em nome da Academia Nacional de Medicina do Brasil.
Todo mundo me pergunta se eu durmo bem. Eu durmo muito bem, jamais tomei qualquer remédio para dormir na minha vida. Eu nunca tive insônia. Costumo brincar dizendo que estou sempre tão cansada que me concentro e durmo e sonho até em avião na ponte aérea Rio-São Paulo.
Mirian: As mulheres que eu pesquiso sentem pânico de envelhecer, de engordar. Estamos entre as mulheres que mais fazem cirurgias plásticas, preenchimentos, botox, remédios para emagrecer (que estão sendo cada vez mais utilizados)… É um enorme sofrimento. Como você avalia essa pressão que as brasileiras sofrem? As mulheres sofrem mais do que os homens com a aparência e saúde?
Margareth: Acho que essa ditadura da beleza no Brasil é uma tristeza. Vejo mulheres, vejo pacientes, vejo amigas sofrendo com essa pressão social que eu chamo sem hesitação de ditadura da beleza. Sobretudo nas mulheres, mas nos homens também, porque a vaidade masculina também é muito presente nos meus pacientes e alguns amigos, a pressão social para que se mantenham sempre bonitos e desejáveis.
Considero muito triste porque isso gera um nível de tensão e de sofrimento que poderia ser perfeitamente evitável se as mulheres conseguissem viver melhor com as cicatrizes do tempo. Isso é muito diferente em países europeus, por exemplo, onde as mulheres e os homens aceitam melhor o passar do tempo, os homens não ficam em busca de ninfetas quando já têm 70, 80 anos. Ao dizer isso, eu poderia ser criticada, porque meu marido era 27 anos mais velho do que eu.
Mas as mulheres sofrem mais, sem dúvida. Esse excesso de procedimentos, mudando a fisionomia, o modo de sorrir, o modo de olhar, com a ilusão de que isso as torna mais atraentes. Acho lamentável que as mulheres sofram tanto por causa dessa ilusão, de que procedimentos, muitos mal feitos, e que lhes mudam mesmo a fisionomia, sejam necessários, para responder a um apelo social.
Mirian: Durante a pandemia, muitas mulheres pararam de pintar os cabelos, fazer as unhas e outras “obrigações” femininas. Elas consideram uma verdadeira libertação. Por outro lado, sentem-se cobradas pelas próprias mulheres para se “cuidarem” mais. Como você explica essa contradição feminina: as próprias mulheres criticando e cobrando de outras mulheres e reforçando “prisões” com relação ao corpo e aparência?
Margareth: Essa questão que você cita, durante a pandemia, é fato. Eu vi isso de perto. Eu não pinto o cabelo por uma sorte, até porque, essa questão de cabelos grisalhos está muito ligada à genética da família. Há famílias em que as mulheres têm cabelos brancos desde muito jovens. Eu não tenho. Então, apenas faço algumas luzes para esconder os primeiros fios brancos que apareceram durante a pandemia.
Se você me perguntar se eu gostaria de ter a cabeça toda branca, não sei como responder, porque ainda não é um problema para mim, mas creio que não gostaria de ficar completamente grisalha, e não tenho nada contra que as mulheres pintem e assim se sintam melhor consigo mesmas. Mas, sem dúvida nenhuma, essa ditadura, essa prisão em relação ao corpo, à juventude e à aparência, eu considero muito triste para as mulheres, sobretudo no Brasil.
Mirian: O que você gostaria de dizer para as mulheres brasileiras, de todas as idades, que sentem pânico de envelhecer?
Margareth: Mirian, eu conheço muitas mulheres, e você é uma delas, maravilhosas. Eu tive a sorte de conviver muito de perto com mulheres de uma força enorme, não só uma força feminina, mas uma força como pessoa no mundo, mulheres que vieram ao mundo para fazer diferença, e por isso foram e são lindas.
Minhas avós foram uma inspiração na minha vida, sobretudo minha avó paterna, imigrante, que ficou viúva muito cedo, criou e educou todos os filhos. E mulheres como Maria Werneck de Castro, Heloisa Buarque de Holanda, Marina Colasanti, mulheres que eu tive a honra de tratar como médica e conhecer muito de perto. De par com os modelos femininos de inspiração como Simone de Beauvoir e seu seminal livro A Velhice, Marguerite Yourcenar, Clarice Lispector, Nise da Siveira, Rita Levi-Montalcini, Maria da Penha, pela importância de sua luta contra a violência, tema tão urgente no momento em que vivemos, e Dona Ivone Lara, inspiração por sua trajetória na saúde e na música. E muitas outras não nominadas, que me ensinaram muito, muito mesmo, ao longo da vida.
Ao longo de tantos anos fazendo pesquisa clínica, ouvi depoimentos de mães, de mulheres que não eram mães, de mulheres que tinham diferentes profissões. Eu ouvi depoimentos maravilhosos de força e coragem que sempre me inspiraram muito.
Eu faço parte da Academia Nacional de Medicina. Fui a décima mulher eleita em quase 200 anos de academia. Somos sete mulheres, atualmente vivas e que participamos de uma academia que é predominantemente masculina. A Academia Brasileira de Letras acolheu recentemente três grandes mulheres: a atriz Fernanda Montenegro, a escritora Ana Maria Gonçalves e a jornalista Miriam Leitão.
O que eu gostaria de dizer às mulheres brasileiras? O que eu costumo dizer às minhas clientes e amigas: nós não temos que ter pânico de envelhecer. Nós temos que nos preparar para envelhecer, porque é inexorável, estamos envelhecendo rapidamente e, por isso, precisamos criar um liame de cumplicidade, de amizade e de afetos. Medo e coragem não precisam ser antagônicos, precisam ser entendidos como possíveis e necessários. Nós precisamos conviver, nós não podemos nos isolar, porque o convívio desafia e inspira ao mesmo tempo.
É claro que mantendo nossa individualidade. Eu vivo muito bem sozinha, até porque eu leio vorazmente. Eu estou sempre lendo alguma coisa. Se não estou lendo, estou escrevendo. Hoje eu já li algumas horas, já escrevi algumas horas. Então, eu acho que as mulheres têm que se gostar mais. Esse é o conselho que eu daria: gostar mais das qualidades e dos defeitos que todas nós temos. Nós somos muito fortes e temos que estar unidas umas com as outras. Neste século XXI, se o mundo tivesse mais mulheres nas posições de poder, não tenho a menor dúvida de estaria muito melhor do que está nessas mãos masculinas dominadoras e insensíveis ao sofrimento humano, que têm sido tão nocivas a tudo e a todos nós.
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